Cada favela, uma república

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Complexo do Alemão. (Créditos: André Fernandes / ANF)

Nos filmes indianos, podemos ver parte das favelas que existem por lá. Já no caso da Somália, o país todo é uma grande favela, segundo os noticiários de TV. Como toda favela, é retratada pela lado negativo, mesmo que a miséria local seja fruto de um processo histórico de colonização européia, ditadura militar com apoio norte-americano e guerra civil para libertação popular.

A Somália fica no Chifre da África, o nordeste africano. Possui área de aproximadamente 2 milhões de quilômetros quadrados e uma população de cerca de 90,2 milhões de pessoas, ocupando uma posição geo-estratégica fundamental para as rotas marítimas que unem Europa e Ásia. Mais de 20 mil cargueiros cruzam as águas pelo golfo do Árden, transportando mais de 10% do comercio mundial.

Os países beneficiados fazem rodízio no comando das operações militares para garantir o tráfego de navios internacionais, ocupando portos e águas territoriais da Somália. Combatentes militares e de segurança privada se unem na garantia das embarcações nos mares e pobreza e caos em terra firme. Enquanto a Somália sofre com governos sem estabilidade e divisões entre as guerrilhas, as empresas e governos estrangeiros se unem para garantir o extrativismo pesqueiro.

Os barcos procedentes da Ásia, Estados Unidos e União Europeia praticam a pesca denominada de I.U.U (Illegal Underclared & Unregullart Fishing) – Pesca Ilegal, Não Declarada, Não Regulada, que é totalmente industrializada, a mesma que acabou com as reservas naturais dos países desses barcos, principalmente da Europa.

 

Protesto na Somália. (Créditos: Reprodução Internet)
Protesto na Somália. (Créditos: Reprodução Internet)

O roubo em massa da principal fonte de proteína de todo o país deixa os pescadores locais famintos, que passam a buscar as armas. Armados, viram sequestradores de cidadãos dos países exploradores. Nesse contexto, surgem os piratas da Somália como alternativa de sobrevivência. Eles têm forte apoio popular – talvez, por levar o produto dos roubos para as aldeias.

Além da devastação da vida marinha, são descartados lixos nucleares e outros produtos tóxicos nas águas da Somália. Cápsulas com detritos nucleares foram encontradas nas praias por pescadores e o contato com o lixo nuclear contaminou comunidades inteiras.

Sem trabalho formal em uma país arrasado, sem ter o que pescar no oceano, muitos cidadãos somalis pegaram em armas para defender o que sobrou: sua casa, sua família, sua própria vida.

Assim como as favelas, estão perto de riquezas naturais e dinheiro – só não têm acesso. Também como nas favelas, não são respeitados direitos constitucionais comuns aos países desenvolvidos, pois são esses países, que se desenvolveram através da exploração abusiva do ser humano e da natureza, os responsáveis por todo o caos e miséria no mundo.

No Brasil, que foi colônia portuguesa forjada no trabalho forçado de pessoas sequestradas, mesmo no período de início da República o direito à moradia foi usurpado com desapropriações e remoções.

Nunca foi fácil ter um lugarzinho para viver na favela. A policia sempre invadiu as casas com truculência. Muito antes da guerra às drogas, o combate era diretamente contra o direito à moradia. O objetivo era remover para longe todos os favelados. No Rio de Janeiro, foram criadas as comunidades da Vila Kennedy e da Vila Aliança, na Zona Oeste, para receber os cidadãos expulsos de suas casas, removidos à força, das favelas da Zona Sul.

Nenhum critério foi usado para manter juntas famílias ou pessoas da mesma região. Hoje, a Vila Kennedy é considerada um bairro, mas vive o dia a dia de uma favela. No caso da Vila Aliança, nem mesmo tentaram mudar sua classificação.

O desrespeito ao oprimidos em todo o mundo foram os principais motivos das revoltas e revoluções populares. A Catalunha, que, durante anos, buscou a liberdade pela via armada, dessa vez, declarou sua independência simbólica através de cerimônias e ritos burocráticos. Sinceramente, espero que consigam sua independência.

Gostaria de ver as favelas declarando sua independência, depois de séculos de abusos e abandono do poder público. Hoje, elas vivem uma situação muito difícil, que é a re-colonização religiosa e moral – alvo de profetas neopentescostais que pregam falsas morais, dizendo que religiosos de matrizes africanas planejam maldades de todos os indivíduos que não conseguem melhorias financeiras e de saúde em suas vidas, desconsiderando os males causados pelo sistema capitalista e todo o processo histórico.

Também precisamos nos libertar desses usurpadores! Liberdade pra Catalunha e para a Rocinha também! Por repúblicas populares e laicas, com direito assegurado à moradia, saúde, educação, cultura, trabalho, transporte e alimentação!

Um salve às repúblicas das favelas!