Brizola na cabeça!

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Créditos: Memorial da Democracia

O Rio de Janeiro vive a pior crise de sua história, lançado em um abismo que vem sendo cavado sob os nossos pés há pelo menos 30 anos. São gerações de oligarquias corruptas, governantes incompetentes, juízes cúmplices e autoridades questionáveis. Mas nem sempre foi assim. Houve um momento em que o Rio foi um farol de esperança para todo o país e uma referência para o mundo. O ano era 1982, o Brasil ainda vivia a ditadura militar e, contrariando todas as expectativas, as pesquisas eleitorais e até mesmo uma fraudulenta contagem de votos (Quem se lembra do escândalo do Proconsult?), o Rio de Janeiro elegia como governador do Estado o engenheiro gaúcho Leonel de Moura Brizola.

Créditos: Reprodução Internet
Créditos: Reprodução Internet

Brizola não foi eleito com o apoio de toda a esquerda, ao contrário. O PT, que ainda engatinhava, lançou Lysâneas Maciel, candidato próprio, para marcar posição, obtendo 3% dos votos. O PCB e o PCdoB, ainda clandestinos e abrigados no PMDB, apoiaram Miro Teixeira, candidato do partido. A direita tinha como representantes o ex-prefeito de Niterói Moreira Franco (ele mesmo!) e a radialista Sandra Cavalcanti. Mas Brizola fez uma campanha inovadora, empolgante, que conseguiu unir parte expressiva do voto da classe média progressista com um “caminhão de votos” vindo das áreas pobres e dos territórios populares do Estado do Rio: nas favelas da capital, em São Gonçalo, na Baixada Fluminense, deu Brizola na cabeça!

Brizola governou para os mais pobres, e esta opção marcou, para o bem ou para o mal, toda a sua carreira política. Incentivou os mutirões nas favelas, enviando material de construção às comunidades para que os próprios moradores virassem a laje juntos em obras básicas de infraestrutura e saneamento. Adotou uma política de segurança pública onde a polícia não subia o morro para esculachar os moradores, contrariando interesses poderosos. Junto com Darcy Ribeiro, seu vice-governador e secretário de Educação, idealizou e construiu o Sambódromo e a Praça da Apoteose, a Biblioteca Pública da Avenida Presidente Vargas, e criou o Programa Especial de Educação, com os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) funcionando em horário integral, servindo três refeições por dia e integrando a escola com a comunidade. A força destes equipamentos educacionais no imaginário do povo pobre de nosso Estado foi tão grande que, até hoje, muitas destas escolas são chamadas de “Brizolão”.

Brizola e Beth Carvalho (Reprodução facebook)
Brizola e Beth Carvalho (Créditos: Reprodução Internet)

Darcy Ribeiro, enquanto secretário de Educação, é um capítulo à parte. Olhar para a mediocridade que temos hoje na gestão pública do Rio, e lembrar que já tivemos como titular da pasta de educação um homem público, político e intelectual da estatura de um Darcy… “Toda criança na escola!”, era o lema que Brizola repetia como um mantra. Mas não era qualquer escola. O Programa Especial de Educação, matriz conceitual dos CIEPs, institui a figura do animador cultural: fazedores de cultura das comunidades eram incorporados às equipes das escolas, promovendo ações artísticas, culturais e pedagógicas, incorporando os saberes e fazeres populares ao espaço educacional.

Abdias Nascimento recebe Nelson Mandela, em sua visita ao Brasil, durante o governo Brizola (foto: acervo Ipeafro)
Abdias Nascimento recebe Nelson Mandela, em sua visita ao Brasil, durante o governo Brizola (Créditos: Acervo Ipeafro)

Tivemos ainda Abdias Nascimento como titular da primeira secretaria extraordinária dedicada ao combate do racismo e à promoção da igualdade racial em todo o país, um modelo para as políticas públicas de ação afirmativa até os dias de hoje. Nilo Batista era o responsável pela área da Segurança Pública, com uma visão humanista e voltada para a defesa do povo, não para a guerra aos pobres. Augusto Boal, Amir Haddad, Antônio Pedro, Cecília Conde, Caíque Botkay, entre outros, compunham equipes que tocavam projetos especiais. Este time de feras, regidos pela batuta do maestro Brizola, davam o tom do que poderia ser um governo de esquerda no Brasil, um “socialismo moreno”, com a cara e as cores do povo, a influenciar toda a esquerda latino-americana e mundial.

Brizola, sem dúvida, teve suas contradições, mas os ataques que sofreu, especialmente por desafiar as Organizações Globo, foram muito mais por suas qualidades do que por seus defeitos. A desconstrução de Brizola orquestrada pela Globo teve aliados e cúmplices tanto na direita quanto na esquerda. E olhando o panorama atual da política no Rio de Janeiro e no Brasil, penso que enquanto não superarmos esta falha trágica, reabilitando o Brizolismo como referência para um projeto de esquerda com base popular, não encontraremos a saída deste labirinto de Minotauro em que estamos metidos. Por mais Brizola na(s) cabeça(s)!

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Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e é autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina" (ANF Produções).