Brasil demolido (com a gente dentro)

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E imaginar o que era este país há pouco mais de um ano… Um imenso frenesi moralizador varria a nação. A vaca da esquerda iria pro brejo do impeachment. O repórter da Globo se espremia, cheio de espaço em volta, só pra dar a impressão de que a Avenida Paulista estava hiper-mega-lotada – dar a impressão de que a Paulista era “O” Brasil, “O” próprio povo brasileiro unificado ali, diante do painel de led da Fiesp. Certa parte de certo povo clamava pelo fim da corrupção. Famílias de verde e amarelo fazendo selfie em blindado; aplaudindo nomes hoje enlameados, vibrando, dançando, coreografando, numa euforia de rua singular e inédita.

Um novo Olimpo da gestão surgia. O que a direita tinha a oferecer? Michel Temer, Aécio Neves e João Dória Jr. Olhem bem. Este era o Trio Esperança de certo Brasil há pouco mais de um ano. Mas, agora, o (ainda) presidente Michel está aí. Bagaço puro. A raposa velhaca foi pega num golpe de mestre – mestre açougueiro do capitalismo da caozada. Flanando em Noviorque… Aqueles que sempre se casam com apresentadoras de TV. Aécio, quem diria, está sendo tratado pela Rede Globo como um… Sei lá… Petista, digamos assim. Também foi flagrado pelo Açougueiro Redentor.

E o Dória? Bom… O Dória ainda governa a cidade mais mobilizada pelo golpe, ou impeachment, como preferem chamar os que seguem ludibriados. A cidade de São Paulo, como saída para a crise moral, como MasterChef da gestão, como Jedi anti-corrupção… Elegeu João Dória Jr. prefeito. Mas, em poucos meses, Dória desnudou-se. Dória está nu. Um Rei Fascista. Autoritário e ignorante. Pobre de espírito e arrogante. Miserável de alma e Riquinho. Primeiro ele cobriu tudo de cinza. Em seguida, ele chamou a SWAT e a SS para varrer, a tiro-porrada-e-bomba, do centro da capital paulista, usuários de drogas, moradores de rua, comerciantes informais.

Para coroar, João Dória Jr. demoliu um prédio com pessoas dentro. Isso mesmo. Acho que nos forneceu, ao menos, uma metáfora para o Brasil. Mas Dória não é só uma metáfora. Ele é o prefeito da maior cidade do país. Ele também é sintoma e alerta.

Tomem cuidado com os Dórias da vida!

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"