Assistindo ao circo pegar fogo (de dentro)

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Créditos: Reprodução internet

Vivemos tempos convulsos… E confusos. A briga entre os poderes Judiciário e Legislativo, amplamente divulgada na grande mídia com o retalhamento pela Câmara dos Deputados das 10 Medidas contra a Corrupção do Ministério Público Federal, além do pedido de afastamento de Renan Calheiros prontamente deferido pelo ministro do STF Marco Aurélio de Mello e a recusa do Senado em acatá-lo, evidenciam o que todos já sabem: vivemos uma crise política de raízes tão profundas quanto aparentemente insolúveis.

Nove meses atrás, Michel Temer fazia discurso em rede nacional para mandar o recado de que as instituições brasileiras estavam “funcionando normalmente” e justificar aquilo o golpe branco aplicado em conluio pelo Legislativo e pelo Judiciário no impeachment ainda mal explicado de Dilma Rousseff. Hoje, nem Temer consegue esconder o que é evidente. “Não temos instituições muito sólidas”, afirmou o dito presidente da república a empresários na última semana. Bem, quando até o mais alto mandatário do país (especialmente um que não foi democraticamente eleito…) reconhece a fragilidade das instituições políticas, significa que vamos mal, bem mal.

O imbróglio em que três das maiores instâncias do país estão metidas parece só corroborar os fatos, causando pavor entre os investidores e o prejuízo do povo que sofre com a crise econômica – crise esta que é, antes de qualquer coisa, uma crise política. Temer tem feito “ouvido de mercador” diante dos bate-bocas constantes entre juízes, ministros do STF, deputados e senadores. Se age para resolver, o faz nas sombras (como sempre, já que por toda a sua carreira política foi visto como um grande homem dos bastidores). Enquanto ele se omite, o Judiciário faz sua cruzada pela moralização da política e o Legislativo tenta salvar a própria pele.

De fato, muitas das medidas propostas pelo MPF parecem frágeis até aos olhos de um estudante de 1º período de Direito. O que elas têm de incisivas têm de apelativas e cedem ao sentimento de sangue nos olhos da população teleguiada por uma mídia que só critica e nada de novo propõe neste limbo. Todos queremos ver os grandes corruptos do país na cadeia. Isso é tão óbvio que não precisa ser nem mencionado.

Mas não soa minimamente esquisito que a Justiça brasileira, sempre lenta, burocrática, cheia das preguiças e das mesóclises, de repente, torne-se tão ágil na caça aos marajás politiqueiros? Ninguém achou nem um pouquinho esquisito que dois ex-governadores do Rio de Janeiro, um deles do partido do ex-presidente-interino-agora-efetivo Temer, tenham sido presos em menos de três dias? Em que momento a injusta Justiça brasileira virou a grande baluarte da igualdade? Desde quando um juiz federal deveria ser incensado à categoria de herói nacional simplesmente por, em teoria, apenas fazer seu trabalho? Por que há ainda uma clara seletividade nos processos da Lava Jato? Por que Michel Temer ainda ocupa o cargo de presidente da república mesmo tendo recebido um cheque nominal da Andrade Gutierrez?

É claro, ainda não estamos vivendo uma obra kafkiana, meus caros. Mas o momento pede cautela e mente sã. Quem tem memória curta esquece, mas a História sempre há de nos lembrar que são momentos de ruptura como o de agora, de grande clamor popular por um moralismo quase messiânico, que abrem precedentes para as mais absurdas arbitrariedades. Já vivemos uma ditadura que até hoje é chamada de revolução por alguns. Não queremos outro estado policial disfarçado de democracia nem viver esse carrossel de emoções rocambolesco que se tornou a política brasileira.

O Brasil de hoje é como um circo pegando fogo, mas nós somos os palhaços e estamos testemunhando o caos das chamas bem do meio dele. Há de se temer o que avizinha – sem trocadilhos.