Anhangabaú da Feliz Cidade

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Janelões do Teatro Oficina, com vista para a cidade de São Paulo (Créditos: Jennifer Glass)

“Você vai se ferrar! Vou transferir a cracolândia pra lá!” (Silvio Santos)

A peleja histórica entre o Teatro Oficina e o Grupo Silvio Santos, sobre o entorno do teatro, em São Paulo, teve mais um episódio esta semana. O Homem do Baú, ladeado pelo prefeito de São Paulo (“relax, Zé Celso, relax“), dirige uma sucessão de impropérios, com um sorriso irônico plasticamente estampado na cara, a um dos maiores encenadores e empreendedores culturais do país. São cenas fortes, mas didáticas, sobre o comportamento das elites brasileiras em relação às cidades e a cultura. O vídeo da reunião entre Zé Celso e Silvio Santos está disponível na internet.

O Teatro Oficina funciona no bairro da Bela Vista, centro de São Paulo. O bairro, popular e afetivamente conhecido como Bixiga, carrega a ancestralidade material e imaterial da formação da cidade de São Paulo e do Brasil: berço do samba paulistano, local de resistência da cultura negra, misturada com a imigração italiana e as tradicionais cantinas e pizzarias que dão fama ao lugar. Uma zona residencial, em pleno centro da metrópole, que durante muitos anos foi refúgio seguro para estudantes, artistas, trabalhadores – um ecletismo cada vez menos comum em uma São Paulo fracionada, empurrada para as periferias,  sufocada pelos arranha-céus e pela especulação imobiliária e financeira.

Nesse ambiente cultural, surge o Oficina, inicialmente como grupo de teatro amador, formado por estudantes da tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ao se profissionalizar, o Oficina passou a ter como sede o histórico endereço da Rua Jaceguai, 520, Bixiga, onde originalmente era a sede de um grupo de teatro espírita. Neste espaço, ao longo dos anos 60, o Oficina se consolidou como um dos mais importantes grupos de teatro do país, marcando a história da dramaturgia brasileira com espetáculos como Pequenos Burgueses, de Górki, Galileu Galilei, de Brecht, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, Roda Viva, de Chico Buarque, e Gracias Señor, uma criação coletiva com o espírito e o ambiente da contracultura dos anos 70. Cada uma destas montagens representa uma encarnação, uma era, da cena teatral em nosso país.

A arquitetura do Oficina foi acompanhando o movimento do teatro e da história, se transformando junto com os espetáculos e o desenvolvimento da estética teatral do grupo. Incêndio, censura, interdições forçadas, exílios, marcaram também a história deste espaço, que se transformou e ressurgiu várias vezes das cinzas, como uma fênix das artes cênicas. Nos anos 80, com o fim da ditadura, deu-se a retomada definitiva da sede em uma ocupação cultural do que eram apenas escombros. Em anos de luta,  várias gerações de artistas, sob a liderança do diretor Zé Celso Martinez Corrêa, foram construindo o edifício atual, projeto da arquiteta Lina Bo Bardi, que concebeu o Oficina como um teatro-passarela, trazendo a rua para dentro do edifício teatral e projetando o teatro para fora, para o entorno, permitindo vislumbrar em pleno centro de São Paulo, entrecortado pelo viaduto do minhocão, um terreiro eletrônico para macumbas antropófagas e tragikomedyorgias teatrais.

O Oficina de Zé Celso e Lina Bardi é o palco da luta entre a Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona e o Grupo Empresarial Silvio Santos, que já dura 30 anos, pelo destino da área do teatro e do seu entorno. Uma luta entre Dionísio e Penteu, como na peça As Bacantes, que o Oficina encenou, transformando em teatro a dramaturgia desta disputa política e econômica travada em torno daqueles metros quadrados que fazem parte da história do teatro e do Brasil. Silvio Santos quer dinheiro, quer construir prédios, estacionamentos, shopping, torres que aprisionem ainda mais o céu de São Paulo, descaracterizando o já combalido ambiente arquitetônico e cultural de um dos poucos espaços horizontais da cidade. No terreno ao lado do Oficina, Zé Celso quer realizar o sonho de um parque público, uma “oficina de florestas”, um respiradouro necessário em pleno centro da capital paulistana, que comece na rua-teatro Oficina e, como um rio, desague num mar de gente, o “Anhangabaú da Feliz Cidade”.

O momento é duro para esta batalha, mas o Oficina insiste, resiste e re-existe, como uma flor nascida em pleno asfalto selvagem.

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Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e é autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina" (ANF Produções).