A vida quando cortada ao meio

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Créditos: Reprodução Internet

Setembro se encerra e outubro inicia muito obscuro. Vidas negras estão sendo ceifadas diariamente das mais variadas formas: violência policial, suicídios, guerras entre grupos civis. Nos últimos cinco anos, tenho sentido como se a vida fosse um copo de cristal, algo que, sem muito esforço, pode chegar ao fim, basta um simples toque. Esse sentimento em nada tem a ver com uma decisão própria, mas, sim, com uma percepção de que as vidas valem menos do que coisas.

Há tempos, temos assistido uma política sistemática de extermínio da população negra a partir do braço armado do Estado, ou seja, do seu aparato militar. São inúmeras invasões nas favelas, onde apossam-se de casas, quebram e furtam pertences, matam à queima-roupa, atiram a esmo como forma de demonstração de poder, forjam provas de crimes, se envolvem com o tráfico de drogas. São incontáveis as maneiras pelas quais a polícia nos tiram a vida.

O suicídio também tem sido um modo pelo qual as pessoas procuram escapar desse mundo cheio de atrocidades e que não comportam a ansiedade da juventude, que tem sede e pressa de viver. No final de semana passado, um jovem se jogou da ponte Rio-Niterói. Num ato de desespero e desamparo, mais uma vida foi cortada ao meio. Eu me recuso a entrar nos comentários em que nada ajudam. O fato é que se esse garoto vivesse em mundo em que sua vida fosse importante, talvez, ele ainda estivesse entre aquelas e aqueles que o amavam. A incidência desses tristes episódios têm aumentado muito. Estima-se que a depressão já seja uma das doenças que mais atinge a população mundial. Quantos mais se matarão?

Outra forma de arrancar o sangue negro tem sido a guerra civil entre grupos, ou se se queira, entre facções que comandam favelas. Sim, esses jovens, em sua maioria, negros, pegam em armas, criam estratégias e invadem os locais onde, supostamente, estão os seus inimigos. É assustador quando vivenciamos ou assistimos vídeos desses episódios, quando, no fim, só resta o sangue na calçada e a dor infinita de quem perdeu um ente querido para esse sistema que quer lucrar sempre, nem que seja a custa de vidas. Como podemos enxergar o inimigo entre os iguais? Que perversidade é essa que não nos deixa reconhecermos uns aos outros?

Talvez, este seja um texto com muitas passagens e informações tristes, mas este tem sido esse o destino de meus irmãos pretos e irmãs pretas. A reunião desses trágicos acontecimentos tem me passado pela cabeça tal qual um plano traçado pelas elites brasileiras como parte da estratégia genocida da população negra, que, não atentos, pensamos ser acidentes ou tragédias individuais.

Não podemos aceitar um Rio de sangue, não podemos naturalizar a morte, tampouco a de jovens. Somos nós que diariamente estamos sendo assassinados e aterrorizados pelo medo. A história da população negra é de luta e resistência. Precisamos lembrar dos nossos ancestrais e fazer como elas e eles – devemos por fim a tudo e criar uma sociedade em que viver seja o essencial e não o lucro, onde tenhamos um mundo que esteja pronto a receber vidas e poemas.