A vida de um favelado importa?

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Moradores do Complexo do Alemão em protesto contra a violência em 2015 (Créditos: Dani Fi)

Embora convivamos diariamente com a violência, ainda é possível que nos assustemos com a brutalidade da mesma. A guerra guerra que parece chegar a um grau ainda maior nas favelas fez mais vítimas nos últimos dias. Vale lembrar que enquanto rolava o boato de paralisação da Polícia Militar, o Complexo do Alemão sofria com intenso tiroteio devido às operações do Bope. Na favela, com greve ou não, sempre é preciso estar atento às movimentações da rua para não ser pego de surpresa.

Na semana que passou, uma das vítimas foi uma menina de sete anos, moradora do Complexo da Maré. Disse o noticiário que a guerra dessa vez se deu entre facções rivais. Mesmo assim, vale insistir: uma menina de sete anos, que brincava na laje de casa, teve seus sonhos interrompidos por mais uma bala perdida. Bala perdida aqui quase sempre tem como endereço a vida de quem nada tem a ver com toda essa violência.

Mas, afinal, a vida de um favelado importa? Pergunto isso porque, no noticiário, acompanhamos diariamente muitas mortes, muitas balas perdidas nas favelas. Mesmo depois do momentâneo mar de comoção da grande mídia, não ficamos sabendo do desfecho dos assassinatos ou do que se pretende mudar a partir desse contexto. O que esse governo falido que ai está pretende fazer? Qual é o papel do Estado nisso tudo? Não podemos mais aceitar a banalização da morte na favela. Eu, enquanto moradora, cheguei à conclusão de que minha vida como favelada não importa para quem está fora do meu perímetro. Sou apenas uma vida banalizada, até porque sempre se cogita se a vítima não tinha envolvimento com o tráfico. Não deveria ser normal chegar a essa conclusão, mas infelizmente é o que acontece. Famílias são destroçadas e nada muda. Quando algo se transforma, nunca é sinônimo de bem-estar para o morador que tenta seguir sua vida apesar dos riscos de que, mesmo em casa, lhe acertem um tiro.

Outro dia, assistindo a um telejornal, vi uma reportagem sobre um tiroteio que aconteceu em um morro na Zona Sul do Rio. O foco da notícia era uma moradora de um prédio no asfalto. Isso nos lembra que não há espaço na grande mídia para expor nossa palavra. É como se na favela só vivesse bandido. Nós somos as vítimas, mas parece que o único atingido é quem está de fora da favela.

O cenário para o futuro não me parece dos melhores. Muito embora reconheçamos que o governo pmdebista está por um fio, sabemos que muito antes deste ou de outro governo, a vida do favelado perante o dito asfalto só é conveniente quando se trata de força de trabalho e consumo. Ainda assim, nossas vidas continuam não importando muito. Essa forma de pensar a vida na favela vem do passado, é localizado historicamente. De lá para cá, muita coisa mudou, mas a violência e o descaso com nossas vidas é uma questão séria que permanece sem solução. Se não somos nós por nós, a violência a qual somos expostos diariamente ainda corre o risco de ser silenciada, como quase sempre ocorre quando se trata do governo e da grande mídia, que é, sim, um de seus braços.

Por tudo isso, fica o questionamento: quantas vidas ainda devem ser ceifadas para que esse cenário temeroso mude?

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Colaboradora da ANF, formada em História, favelada, serianática, sonhadora, praieira e apaixonada pelo Rio de Janeiro.