A inviável gestão Nilcemar

1644
Protesto dos trabalhadores da cultura no Rio. (Créditos: Mauro Marques)

Parece algo já distante no tempo, mas, quando Nilcemar Nogueira assumiu, todos nós comemoramos. Quem está na luta por direitos, representatividade, contra o racismo e pela cultura achou uma importante nomeação pelo fato de uma mulher negra, do samba, de origem favelada, assumir, pela primeira vez, a pasta da cultura em plena gestão Crivella.

Porém, logo nas primeiras aparições, Nilcemar foi nos desencantando. Com uma postura agressiva e autoritária, arrogante mesmo, ostensivamente despreparada para as pressões do cargo, a secretária foi enfiando os pés pelas mãos. Na justa luta pelo pagamento do Fomento das Artes 2016 (lançado na gestão Paes-Perim), a postura da secretária foi bizarra: atacou quem a questionava, desqualificou artistas e produtores, e colocou-se como alguém que não aceita pressão.

Lembro particularmente de um encontro que ela realizou no Centro Coreográfico da Tijuca. Auditório cheio, mais de 100 pessoas. Diversos assuntos. A certa altura, uma pessoa da plateia, artista e produtora, alegou que não estava ali para cobrar o Fomento, que o Seminário que, no ano anterior, ela havia realizado com verba municipal, neste ano ela realizaria sem dinheiro e que entendia a situação da Prefeitura. Isso no meio de uma galera que lá estava justamente para cobrar. Mas tudo bem. Cada um na sua. Eis que, após a fala desta pessoa, a Nilcemar, diante de todos, se dirige a ela: “Me passa o nome do seu projeto. Esse eu vou pagar. Faço questão”.

A grita na plateia foi grande. Vozes levantaram-se para dizer que a Secretaria não poderia agir assim. Ali, eu vi o despreparo e a falta de noção aguda. E era só o começo. A reunião acabou com bate-boca, porque a secretária subiu nas tamancas quando a questão do Fomento foi cobrada.

Em outra ocasião, durante uma reunião dos Movimentos pela Cultura, em um espaço da Lapa, um representante da Secretaria Municipal de Cultura apareceu para se posicionar. E então, numa sala com mais de 70 pessoas, mandou a seguinte frase: “A gente, na Secretaria, fica olhando as fotos das reuniões de vocês e vê que só tem branco”. Jamais desmereceria qualquer luta por equidade, mas dizer isso no meio de uma sala com integrantes do Teatro de Anônimo, Jongo da Serrinha, Coletivo Bonobando e outros grupos de origem popular… É bastante tosco.

A tática era e continua a ser esta: desqualificar e dividir os trabalhadores da cultura, usando de mistificações. Tratou a galera perrengueira e persistente da resistência cultural como se fossem “os privilegiados” da cultura. Não demonstrou habilidade alguma para o diálogo.

E agora, nesta questão com o Jongo da Serrinha, a secretária mostra, mais uma vez, e de forma ainda mais cabal, a sua inabilidade, autoritarismo e arrogância. Ataca frontalmente pessoas, as expõe na rede social, em uma postura absolutamente incompatível com um cargo público.

Suellen Tavares Onixêgum, do Jongo da Serrinha, foi bem enfática nas redes sociais e mandou o seguinte recado à Secretária de Cultura:

Adriana Schneider, do movimento Reage Artista, também se manifestou.

Não há mais o que dizer. Um ano inteiro já se passou e a gestão cultural está paralisada na cidade. Houve o calote no Fomento, os editais lançados são de valores irrisórios e a secretária, em entrevista ao Jornal O Globo, disse que a verba que seria para o Fomento à Cultura em 2017 foi para o… Museu do Amanhã: “Então, eu tinha no orçamento uma previsão de R$ 15 milhões para fomento. Tive que realocar. Como deixar fechar o Museu do Amanhã, um museu de reconhecimento internacional?”, disse a secretária.

Disse também, na mesma entrevista, que o Museu do Amanhã custa 40 milhões e que a prefeitura entra com 12 milhões. Ou seja, o Jongo da Serrinha não pode, segundo ela, captar dinheiro diretamente da Prefeitura porque já está inscrito no ISS, mas o Museu do Amanhã pode receber a verba que iria para a produção cultural da cidade inteira! E ainda captar no mercado, via leis de incentivo! Tá tudo errado!

Nilcemar é inviável. Já provou isso. Precisamos de mudança. E mudança para melhor.

Compartilhar
Artigo anteriorNa favela onde moro: sobre dinossauros e polícia
Próximo artigoEscola na Zona Portuária seleciona jovens de baixa renda para cursos gratuitos
Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"