A face mais perversa da barbárie

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Créditos: Reprodução Internet

(Carta-desabafo para o jovem tatuado na testa no ABC Paulista)

Querido amigo,

Eu não o conheço pessoalmente, mas sei que sua dor atinge milhões de jovens da periferia. Sua dor atingiu minh’alma. A sociedade já tatuou em você muitos nãos ao te marcar com desprezo e te enterrar vivo, negando-lhe direitos básicos. Ela disse que seu fim seria trágico, que você seria mais um pixote, como foi Fernando Ramos da Silva; que teria o mesmo fim trágico de Amarildo da Silva, da Rocinha. Ela disse que seu destino seria como o do Sandro Barbosa do Nascimento, do fatídico ônibus 174; que você deveria ser arrastado pelas ruas como foi Claudia Silva Ferreira; que sua cabeça deveria ser esfacelada por um tiro de fuzil como ocorreu com o menino Eduardo de Jesus Ferreira, do Complexo do Alemão, e que você deveria viver na mesma cela fétida em que hoje se encontra Rafael Braga. A sociedade disse que você é uma praga que deve ser exterminada, assim como exterminam todos os anos 58 mil “ninguéns” nessa pátria patriarcal, machista e racista.

Há certas dores que trago em meu peito latino, as quais não sei curar. Já tentei ser isento, insensato, ingrato e até mesmo ignorante em certos assuntos, mas há fatos sociais que me machucam da mesma forma como machucavam as chibatadas nas costas dos negros escravos. Eu nasci nesse navio negreiro chamado Brasil.

Eu nasci para ser intenso e não fugir do bom debate. Eu me informo sobre as mazelas das ações humanas, ainda que, essas me deixem uma fenda e me ofendam. Por isso, ao ver a cena repugnante de um jovem sendo tatuado na testa com os dizeres “sou ladrão e vacilão”, isso deixa em minha pele a mesma marca. Antes que alguém tenha a cretina ideia de que eu defendo bandidos, devo avisar que sempre convivi em meio a vários deles, inclusive, em meio aos políticos lacaios. Também já tive um irmão desaparecido, um assassinado pela polícia, outro brutalmente torturado por bandidos e dois sobrinhos assassinados pelo tráfico/milícia, além de muitos amigos de infância que foram torturados e morreram sem que a sociedade soubesse. Também sinto a dor pela perda de um querido e combativo companheiro, meu mano Tim Lopes.

Conheço como poucos a dor da desumanização, sei o que é sofrer na pele ao ver sua casa invadida, cotidianamente, por policiais. Eu fui ameaçado de morte e tive que deixar o meu país há 21 anos por causa das minhas lutas em prol da favela na qual nasci. Eu sei exatamente o que é poço, o que é fundo, o que é falta d’água, o que é viver sem água encanada e o que é levar porrada, por isso nenhum argumento fascista me convencerá. Eu relato minhas experiências de vida no singular por não precisar que alguém sinta pena de mim, porque eu sei o que sou e que não nasci para a pluralidade da mesmice ou para concordar com esta horda bárbara que nos assola. Eu sou jogador de pelada em campo de terra batida, o meu paladar combina com um bom torresmo e uma cachacinha do alambique. Sou do samba, sou da resistência, e portanto, sei que a vida é melhor que a vingança e que ódio é melhor que este ópio cotidiano que nos tem feito reféns.

Não foram somente dois tatuadores que torturaram-no e tatuaram-no na testa, mas, sim, toda uma sociedade que lhe detesta. Saiba que não são só tristes esses tempos no qual vivemos: é melancólico olhar para o lado e não ver sombra de amor ao próximo, é doloroso olhar para trás e não ver autocrítica sobre o que fizemos de nós, é cruel olhar para frente e não enxergar futuro para uma sociedade doente. O que estamos fazendo de nossas vidas? O que queremos e aonde iremos chegar com esta histeria coletiva?

Eu sou poeta e, por desatino do meu destino, não sei olhar para o ódio com ódio, não vejo nenhuma doença como incurável, porque a dor que trago em meu peito a compartilho do mesmo modo como diz a letra da música do mestre Chico Buarque: eu uso a tatuagem como a sublimação do amor, para te dar coragem de seguir viagem quando a noite vem.

Querido amigo, vá! Siga sua viagem e não permita que a marca da crueldade fique gravada em sua memória; contrarie – como eu contrariei – e mostre que a poesia em ti vencerá o ódio.