A experiência Niemeyer

Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói - RJ. (Créditos: Leo Zulluh/ @culturaniteroi)

Esta semana, faz cinco anos da morte do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Conhecida, celebrada e admirada em todo o mundo, a obra de Niemeyer é em si uma escola, um estilo de arquitetura. O traço do arquiteto representa a própria cultura brasileira, expressão da nossa modernidade e do jeito brasileiro: espetacular, não-linear, imponente e glorioso. Niemeyer é orgulho e inspiração, expressão do que o Brasil tem de melhor.

Não estudei arquitetura nem sou especialista no assunto. Vivo a arquitetura como experiência, como um corpo no espaço: cidadão, transeunte, visitante, viajante, residente. Tenho tido o imenso privilégio de, nos últimos meses, dirigir e trabalhar em um teatro popular, público, construído e projetado por Niemeyer, que leva seu nome, em Niterói. A cidade onde nasci e vivo atualmente reúne o segundo maior conjunto arquitetônico projetado pelo arquiteto em todo o mundo, atrás apenas de Brasília. É um orgulho e privilégio de niteroienses.

Em minha infância e adolescência, acompanhei por anos e de longe o espetáculo da construção, desde as fundações, do Museu de Arte Contemporânea (MAC), hoje um símbolo da cidade, e, logo em seguida, do próprio Teatro Popular. As obras de grande porte tiveram um longo percurso da prancheta do arquiteto até a sua materialização e ocupação pelo público. Mas acompanhar a construção destes equipamentos marcou a passagem do tempo, o meu próprio crescimento e formação, estabelecendo a minha relação afetiva, ainda que inconsciente, com a obra e a estética de Oscar Niemeyer.

A consciência desta relação com a “experiência Niemeyer” aconteceu no período em que morei na capital federal. Aí eu fui entender o “céu de Brasília, traço do arquiteto” da canção de Djavan. No horizonte infinito do cerrado, o céu nos envolve e nos domina. Não é a toa que o planalto central é lugar de refúgio e encontro das mais variadas correntes espirituais e religiosas, de Dom Bosco ao Prem Baba. E é neste cenário que a obra de Niemeyer alcança o seu apogeu e encontra a sua mística: em uma cidade imaginada, planejada entre a imensidão do céu e da terra, a obra humana se projeta em escala grandiosa, dialogando com o infinito. Ao construir os edifícios-monumentos de Brasília, o comunista e materialista Niemeyer dá um recado ao divino sobre a grandeza da experiência humana em coletivo.

Celebrar Niemeyer é celebrar o Brasil como possibilidade e projeto civilizatório. É encarnar a exuberância e fortalecer a autoestima do povo brasileiro em sua singularidade enquanto projeto de nação. A funcionalidade e a eficiência, conceitos tão caros à “ética protestante e ao espírito do capitalismo” do Atlântico Norte não serão, no matriarcado de Pindorama, mais importantes que a nossa beleza, a nossa grandeza e a nossa exuberância. O céu de Brasília e os traços de Niemeyer estão aí para nos lembrar da nossa força, guerreira e brasileira, contra os dragões da maldade e da mediocridade que insistem em nos rodear.