A eleição dos Marcelos: para quem foram os discursos?

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Domingo, 30 de outubro, termina a saga na disputa pela Prefeitura do Rio. Digo domingo e não sábado porque, como mesária, acompanho as manifestações silenciosas – e as não tão silenciosas assim – dos eleitores também no último dia.

As eleições de 2016 tanto no primeiro quanto no segundo turno foram pautadas pela militância: de um lado, estudantes universitários e simpatizantes ao PSOL e de outro, religiosos considerados mais conservadores, ligados à Crivella. Ambos bradaram, defenderam, difundiram e seguiram amplamente seus candidatos como se valesse uma vida. E, se pensarmos de forma mais conotativa, de fato, a vida de mais de 6 milhões de cariocas está em jogo.

De lá pra cá, me perguntei como o candidato com rejeição acima de seu oponente na pesquisa do Ibope em 28/09/16 (Marcelo Crivella tinha 26% e Marcelo Freixo 19%, e, em pesquisa anterior do mesmo órgão, Crivella tinha 27% de rejeição e Freixo 26%) pode estar liderando as intenções de voto no segundo turno.

Porém, a diferença de discursos sempre me chamou atenção. Marcelo Crivella fala a língua do povo mais pobre. Não que Freixo não dialogue com pessoas carentes, mas, talvez, Crivella consiga transmitir exatamente o que essa faixa da população quer ouvir. A construção de um parque entre Bangu e Campo Grande, com aproximadamente 12km de extensão, pode ser facilmente transformado em uma obra superfaturada, mas não se pode negar que essas obras faraônicas geram expectativas no povo, vide a TransOlímpica e TransOeste.

Quando Crivella anuncia que não vai abrir nenhuma Clínica da Família enquanto todas não estiverem funcionando, imediatamente gera uma sensação de satisfação. Que cara justo, não? Não concordo nem discordo da iniciativa, mas, imediatamente, você entende o que ele quis dizer. Quando propõe aumentar as lonas culturais, sua proposta é entendida facilmente (ainda que no Encontro da Favela com Candidatos à Prefeitura do Rio, promovido pela ANF – Agência de Notícias das Favelas em 18/09/2016, o candidato demonstrou desconhecer o que seria o Ocupa MinC, importante ocupação em prol da liberdade cultural). Contudo, o que estou colocando em jogo não são propostas, mas a capacidade de se fazer entender. E nisso Crivella vem se saindo muito bem, o que pode explicar sua liderança.

Em outra narrativa, Marcelo Freixo trouxe a essa eleição propostas de igualdade e representatividade para todos os cidadãos, afirmando que todos eles precisam ter o direito à cidade – o que é legítimo. Mas me pergunto se o seu João, que sai às 5h30 de casa para o trabalho, que pega trem e que estudou apenas o 1º segmento da Educação Básica, sabe o significado do direito à cidade. Em quatro anos de graduação e mais um ano de mestrado na área, precisei ler muitos textos para entender basicamente esses dois assuntos. Sinto falta de mais explicações simples, de menos “desvincularização de gênero”, menos “professores com planos de salários unificados” e mais “seus filhos não podem mais sofrer preconceito seja qual for o motivo” ou “professores vão ganhar melhores salários porque há um plano pensado para isso”.

Freixo traz pautas importantíssimas para o Rio de Janeiro, que carece de respeito, organização e oportunidades iguais para todos. Ele e sua co-prefeita Luciana Boiteux parecem saber como gerir uma cidade. Por outro lado, Crivella apresenta suas ideias convocando multidões, se fazendo entender, como sempre fez ao longo de sua trajetória religiosa, quer suas opiniões e atitudes sejam duvidosas, quer não.

A democracia exige o voto; o voto exige confiança; e confiança se consegue com clareza. No bom português: “Falando a mesma língua, morô?”.