A dor da gente não sai no jornal

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Ônibus incendiado durante paralisação nacional de 24 horas em 28 de abril contra a Reforma da Previdência (Créditos: Bruno Bou / CUCA da UNE)

Para quem acompanha o noticiário da grande mídia, fica a sensação de que o Rio de Janeiro está de volta aos anos 90. Tiroteios à luz do dia, ônibus incendiados, comércio fechado a mando do tráfico, balas perdidas… É como se a cidade tivesse sido uma ilha de paz por anos e, de repente, mergulhasse no caos. Ledo engano, cara pálida.

Sim, é óbvio que estamos vivendo um velho novo patamar da violência no Rio. Sim, muito do que ocorre nos lembra as ações do passado, em que as guerras de facções criminosas levavam terror a toda a cidade. Mas é importante ressaltar que nas favelas, as áreas que a metrópole ignora e despreza, a violência nunca deixou de existir. No máximo, mudou de mãos. Tiroteios em horário escolar, ônibus incendiados em protesto pela morte de moradores, comércio fechado a mando da fiscalização da prefeitura, balas perdidas que matam dentro de casa, arbitrariedades: nada disso a favela deixou de ver. Faz parte do cotidiano – o que não significa que é algo a ser normalizado, claro.

Durante sete anos, as Unidades de Polícia Pacificadora viveram um jogo de aparências ao supostamente apaziguar os ânimos. Entretanto, os conflitos e disputas seguiram existindo. Eles só não eram divulgados por uma imprensa empenhada em enaltecer um projeto que, desde o início, estava fadado ao fracasso. Confrontos armados eram tratados como casos isolados, mesmo em áreas que estavam longe do cinturão midiático da pacificação. Era preciso vender o Rio de Janeiro como uma cidade segura e garantir que os megaeventos, que aconteceram aqui às custas de sangue e sofrimento do nosso povo, pudessem se tornar cases de marketing.

As manchetes dos jornais estamparam como novidade os conflitos de ontem na Cidade Alta, que há meses tiram a paz dos moradores. A comoção atual só existe porque a guerra chegou, finalmente, ao asfalto. Um Estado falido, que não pode mais arcar com o molha-mão eterno, retomou seu projeto de abandono das áreas desprivilegiadas. Todos os dias, tem sangue favelado no chão e ninguém faz nada a respeito. A grande mídia só fala das nossas dores para vender jornal. Mas elas não são só nossas. São as cicatrizes de uma cidade para quem a barbárie só existe quando atrapalha o trânsito.