A cultura da censura

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Atrizes brasileiras protestam contra a censura na passeata dos 100 mil, em 1968. (Créditos: Reprodução Internet)

O movimento que começou com o cancelamento da exposição “Queermuseu” em Porto Alegre dá sinais de que chegou para ficar: ataques a uma performance no MAM-SP e aos gestores, curadores e artistas que se posicionaram em solidariedade a esta instituição; veto do prefeito da cidade do Rio de Janeiro (que triste fim!) à mesma exposição no Museu de Arte do Rio – MAR, seguido de interdições de atividades com temática LGBT nos equipamentos culturais da Prefeitura; episódios semelhantes acontecendo em Belo Horizonte e em outras cidades do país. Os new kids on the block do MBL parecem ter encontrado um novo/velho filão narrativo a explorar: apelar à moral, aos bons costumes, aos valores da família brasileira e, last but not least, vociferar contra os “artistas endinheirados, mamadores da Lei Rouanet”.

O fracasso da agenda imposta pelo consórcio golpista que chegou ao poder patrocinado pelos patos da Fiesp e seus porta-vozes na mídia e nas redes sociais é evidente: desemprego e recessão se alastrando, baixíssimos índices de popularidade do governo e do Congresso – uma crise institucional sem precedentes.  O que restou para a direita foi investir numa cruzada moralista, regressiva, mas de fácil assimilação pelo senso comum. Em um país onde apenas 5% da população frequenta museus, em que o consumo cultural da imensa maioria dos cidadãos está restrito à programação da TV aberta e com baixíssima oferta de conteúdos culturais nos currículos escolares, é natural que a opinião pública média assuma uma posição contrária a determinadas manifestações artísticas, especialmente quando estas são apresentadas sob a forma reducionista de “um homem pelado na frente do seu filho pequeno”.

Nada de novo sob o sol. Recorrer  à moral e apelar aos costumes como elemento unificador de um difuso “sentimento nacional” é moeda corrente dos fascismos, dos autoritarismos e das ditaduras. A humanidade viveu episódios semelhantes no nazismo alemão, nos expurgos do stalinismo, nas ditaduras da América Latina. Até nos Estados Unidos da América, “the land of freedom” (“a terra da liberdade”), acaba de ser eleito um presidente que se vinculou a uma parcela expressiva do eleitorado profundamente incomodada com a presença de negros, gays e mulheres emancipadas na linha de frente dos espaços de poder. O retrocesso cultural e civilizatório não é obra somente dos governantes, pois encontra lastro e respaldo em setores importantes da sociedade.

Não há, portanto, soluções simples para a resistência contra a agenda do atraso. Esta parece não ter chegado como algo episódico, mas um movimento de longa duração, uma peça de resistência a que os setores conservadores deverão se agarrar para sustentar e justificar sua presença e seu discurso na esfera pública. E que, gostemos ou não, tem ressonância em parcela expressiva da população, aí incluídos os setores populares. É claro que é preciso resistir, denunciar as ameaças e intervenções diretas do estado em ações de censura, constrangimento e retaliação a expressões artísticas e conteúdos culturais. Mas é fundamental encontrar saídas e estratégias para ampliar esta percepção junto ao conjunto da sociedade. Inegavelmente, o retorno à moral fez com que os porta-vozes do fascismo furassem a própria bolha, ampliando o raio de alcance de sua influência, dialogando com questões presentes no sentimento popular.

E nós, quando sairemos da nossa?

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Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e é autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina" (ANF Produções).