2016, o ano que a periferia quer varrer do mapa

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Rocinha (Créditos: Rafael Gomes / Favelagrafia)

2016 foi um ano difícil, e disso ninguém duvida. Mas, se foi complicado no asfalto, imagine nas favelas do Rio, onde falta quase tudo e as dificuldades ganham peso sempre maior. A crise afetou todas as áreas: política, economia, segurança, educação. Basta multiplicar os efeitos por dois para ter a dimensão real do que tudo isso significou para a periferia.

A situação política do Brasil piorou e muito a vida dos mais pobres. A redução de programas como Fies e Prouni já afetam diretamente as oportunidades de educação não só dos jovens, mas de todos aquele que buscam uma maneira de continuar os estudos e investir na carreira. Nunca, como nos últimos 10, 12 anos, se viu tantos favelados nos bancos das universidades. Com o quadro de agora, em que ganham cada vez mais espaço discursos conservadores sobre a revisão das cotas e até da privatização do ensino superior, ninguém sabe em que patamar estaremos em uma década. A única certeza que existe é de que tudo será mais complicado.

A instabilidade também mexeu diretamente com o emprego e o bolso do trabalhador. A falência do Estado do Rio coincidiu com a entrega das obras das Olimpíadas, e isso já traz reflexos notórios para os trabalhadores da construção civil. O fim dos investimentos que geraram tanta mão de obra e beneficiaram milhares de famílias dentro e fora das favelas do Rio afetou em cheio as áreas mais vulneráveis da cidade. Um exemplo muito claro disso foi o término e também o abandono das obras do PAC no Alemão (já que há obras não completadas em diversas áreas do morro), que deixou muitos desempregados na região. A suspensão por tempo indeterminado do Teleférico também causou reflexos, assim como a penúria dos servidores do Estado, há meses sem receber salários. Na ponta, o comércio tem sido muito afetado, pois se não há consumidores, todos perdem.

A bancarrota das UPPs também atingiu a economia das favelas. Muitas comunidades pacificadas que vinham se beneficiando do turismo, da visibilidade midiática, do fluxo de pessoas que passaram a circular e dos investimentos que foram atraídos para estas regiões viram naufragar a bonança econômica com o dito retorno da violência e dos conflitos de facções rivais, que voltaram com tudo em 2016.

Esta é, aliás, uma das notícias mais preocupantes do ano, já que parece que voltamos aos anos 1990 neste quesito. A guerra do tráfico seguiu fazendo suas vítimas e deu as caras até nas chamadas comunidades pacificadas. O pânico dos tiroteios voltou a ser rotina por todo o Rio. Mas é importante ressaltar, claro, que a violência nunca deixou de existir nas favelas. As operações policiais nunca deixaram de acontecer, e a polícia sempre atuou de maneira repressora em todas as favelas por onde passou, mesmo quando ocupadas “em missão de paz”.

Vimos muitos casos de mortes violentas causadas tanto por traficantes quanto por policiais, que de forma arbitrária decidem em seus tribunais informais o direito à vida ou à morte. Recentemente, isto culminou no assassinato de sete jovens na Cidade de Deus após a queda de um helicóptero da polícia na comunidade – moradores acusam PMs pela execução em represália ao acidente, que até o momento não foi confirmado como atentado. Ganhou repercussão no início do ano também o caso do jovem morador do Cesarão, em Santa Cruz, morto por traficantes sob a alegação de que ele era frequentador de festas de milicianos. No fim das contas, sofremos todos e as baixas acontecem por todo lado nesta guerra sem fim.

A polícia foi um dos instrumentos também para as remoções de favela que continuaram a acontecer em 2016, em uma clara política de limpeza social com a realização de grandes eventos como os Jogos Olímpicos. Símbolo de resistência, a Vila Autódromo virou nome de rua e foi reduzida a 20 casas. Os moradores da Favela do Horto, na Zona Sul, seguiram na luta para se manterem de pé e foram recepcionados com spray de pimenta e bala de borracha custeados pelo Estado. O mesmo aconteceu na Favelinha da Skol, no Complexo do Alemão, com um festival de arbitrariedades que incluiu a prisão de integrantes do jornal Voz das Comunidades. Esperamos que o novo prefeito do Rio cumpra com a promessa de campanha de que não vai haver ataques ao direito de moradia dos favelados durante seu governo.

Apesar de tantas notícias ruins e muitas reviravoltas na área dos investimentos e das políticas culturais, vimos em 2016 muitos projetos bacanas que demonstram a força e a criatividade de quem mora nas favelas. O Favelagrafia, que levou para o Museu de Arte Moderna do Rio fotografias clicadas por moradores de áreas como Mineira, Cantagalo e Borel, foi um deles. Aparelhos públicos de cultura, como as Arenas Cariocas e as Bibliotecas Parque, também foram palco de muitas manifestações culturais da periferia e precisam seguir ativos para garantir a efervescência cultural das regiões onde estão localizadas.

Representando toda a equipe da Agência de Notícias das Favelas, posso dizer que é um de nossos orgulhos dar destaque a estas iniciativas e tudo que as favelas possuem de bom. Estamos aqui para fazer um contraponto à grande mídia que afirma que na periferia só existe violência, carência e dor.

Esperamos trazer melhores notícias em 2017.