*Efeito Colateral*
29/07/2009
Antes de escrever sobre o quero escrever acho importante situá-los da atual situação política-criminal do território de onde falo. A Vila do João, onde moro, junto com mais cinco favelas era “dominada” pela facção criminosa A.D.A. (Amigos Dos Amigos). Essa facção mais as facções CV (Comando Vermelho) e TCP (Terceiro Comando Puro) e os Milicianos, são responsáveis pelo “domínio” territorial, político, econômico e social das dezesseis comunidades que compõem o bairro Maré. Essa é a composição da disputa geográfica dos grupos armados em confronto no bairro Maré.
Como podem imaginar, a relação entre essas facções se dá pelo confronto armado na disputa por ampliação do controle territorial. O que acontece hoje na Vila do João e as demais favelas que eram controladas pela facção ADA. É uma investida muito forte da facção rival TCP, que dominou 50% do território que antes era controlado pela facção ADA e, ainda tenta conquistar os outros 50%. A ADA por sua vez tenta assegurar o que lhe restou e tentar recuperar a parte que perdeu, sem muito sucesso, até o momento.
Esse é um pouco o cenário atual. Não é preciso lembrar que são grupos com armas de grosso calibre, sem nenhuma preparação e ávidos por vingança. Isso vai dar numa constante troca de tiros e investidas sucessivas por ambas facções. Desses confrontos quem mais sai prejudicado é o(a) morador(a). Somos nós as vítimas do chamado efeito colateral. Os relatos e depoimentos são os mais tristes, preocupantes e trágicos que se possa imaginar. Nunca antes, na minha história dentro da Maré tive tantas pessoas próximas vitimadas de alguma forma, pelos confrontos entre facções rivais ou entre facções e a polícia. Morreu um senhor morador da minha rua na quinta-feira passada porque foi obrigado a transportar traficantes em meio a uma imensa troca de tiros. A Kombi foi fuzilada pelos traficantes rivais e o senhor morreu. Meu vizinho teve a casa fuzilada e invadida porque traficantes invasores que pensaram terem visto inimigos na casa dele. Ele tem mulher e filha pequena e sua mãe mora na parte de cima da casa. Ontem fiquei perdido no meio de uma troca de tiros em meio a uma escuridão provocada por uma queda de energia e soube que um amigo tomou um tiro na perna. Meu irmão, “veterano de guerra” relembrou os tempos de palafita e teve que rastejar em casa para chegar aos interruptores e conseguir apagar as luzes da casa e assim evitar um possível pedido de guarida por algum traficante. Em outro caso, um amigo nosso teve a casa invadida por policiais e foi acordado com fuzil na cara. São inúmeros os casos. São muitos os óbitos. São vários os feridos fisicamente, socialmente e psicologicamente.
Pessoas inocentes, trabalhadores, pais de família, cidadãos. Pessoas que estão tendo arrancado de si a esperança de uma vida melhor. Que vivem o medo e o risco eminente de uma morte violenta e sem terem a quem pedir socorro.
Como exigir dessas pessoas um voto “consciente”? Como convencê-las de procurar os meios legais para reivindicar seus direitos se nem mesmo se veem como sujeitos corporificados de direito? Cadê o acesso aos instrumentos legais? Onde estão os tais Direitos Humanos, tão ventilados nos últimos tempos? É necessário urgentemente criar meios de acessibilidade a mecanismos que garantam direitos primordiais como o direito de ir e vir e, principalmente, o direito a vida. Sem a garantia de acesso a esses mecanismos fica muito difícil mudar a cultura do macaquinho que nada ver, nada sabe e nada ouve.
Nesses dias de luto e violência tem me levado a refletir mais sobre a favela. Por mais que a violência tenha crescido junto com as favelas, ela [a favela] sempre tentou manter o que mais tem valor: a alegria e a força do seu povo. Mas só isso não basta. Precisamos sair as ruas. Precisamos lutar por dignidade, por respeito, pela vida. Ultimamente só vejo medo nos olhos das pessoas. Nem mesmo o baile funk tão necessário para descarregar nossas angústias e depressões existe mais. Está proibido pela polícia. Chegaram a ponto de proibir sua execução em festa particular, é repressão demais. Tenho andando assustado, quase não paro na rua, não vejo meus amigos, me assusto com criança correndo, barulho de moto, gente gritando, com o silêncio. Quantos de nós passamos por problemas psicológicos? Quantos sabem disso? Assim tem sido nossos dias e noites. Do jeito que ta não da pé, do jeito que ta só a fé.
Francisco Marcelo - Morador da Vila do João e estudante de geografia da UFF




Francisco, seu texto está excelente! Eu acho que o principal problema da violência é que todo mundo se tornou passivo demais. Pessoas morrem todos os dias e ricos, pobres e pessoas da classe média continuam suas vidas sem protestar. Também não sei se só o protesto adiantaria. Quantas e quantas vezes não vemos passeatas que não dão em nada? Também não sei se é pelo voto que viria a transformação. Um pouco de descrença da minha parte, talvez… O que eu acho é que cada um, dentro do seu próprio campo de atuação, precisa chamar a responsabilidade para si e tentar mudar alguma coisa. Jornalistas precisam divulgar, fazer matérias contundentes a respeito disso. Sempre existe uma forma de cada um contribuir para jogar luz sob à questão. Estamos nessa! Torcendo e trabalhando para que as coisas mudem para melhor. Parabéns!!
Acho q a grande causa do caos hj instalado no Rio de Janeiro é a ausência do Estado nas favelas.
Infelizmente quem ocupou essa lacuna foram os traficantes que se proliferam nas diversas facções.
O clima é de guerra, é uma guerra urbana o q se vive hj na Cidade Maravilhosa.
E em clima de guerra, é difícil estabelecer o limite da ética…
Como disse o Francisco: “do jeito que ta só a fé”.
Torço para que a situação não só nessa comunidade mais no Estado do Rio seja mais pacífica.
Entre duas facções sedentas por vingança, está o povo. Uma população desprovida de segurança em meio à disputa pelo poder e o domínio. Além de viverem em condições precárias, os moradores têm que se manter presos em suas casas ou sair na incerteza que haverá retorno. A violência tornou-se convivio constante, nem em casa estamos podemos nos sentir seguros.
E esse é o nosso Brasil o país sem ordem e progresso.
Seu texto e a reflexao pura , da vida de trabalhadores , na sua grande maioria , e que ao longo desses anos , se deixou calar pela violencia .Mas devo chamar a atencao , para o fato de que estamos vivendo assim , por culpa de muitos companheiros , que se deixaram convencer , por esse “poderes paralelos”, e nao fizeram sua parte , para defender a honra e a dignidade dos cidadaos honrados destes locais .Hoje infelismente , nao ha solucao aparente .Estamos de luto , por diversos cidadaos que perderam a vida nesta guerra sem fim .Parabens pela sua coragem .
Incrível como a luta de poder muda apenas de endereço. O que o Francisco relata, melhor, o que o Francisco desabafa é a angústia daqueles que sonham com a dignidade necessária de cada ser humano. Quando falava da questão do endereço, observamos que se na Vila do João as facções lutam pelo poder, em Brasília as coisas não são diferentes, onde não facções mas organizações sociais partidárias legais. Se na Vila do João é necessário apagar as luzes para as ações, lá na Capital, às luzes acessas tudo acontece. E todos ficamos assim como o Francisco sem saber o que fazer. Mas está na hora amigo Francisco, de mudarmos não só a vida aí como tb lá. se de nossa parte estivermos comprometidos com a transformação, esta deverá repercurtir e ecoar além da esquina da sua casa, da minha casa, de nossas casas, enquanto pudermos tê-las.
Francisco, acredito que você, fielmente, conseguiu retratar não só a sua realidade, ou da sua comunidade, mas a realidade de muitas pessoas que se vêem abandonadas pelo descaso de políticos, de polícia, de tudo… As brigas e confrontos nas favelas brasileiras já ultrapassaram os limites do tolerável há muito tempo. Os meios de comunicação tem divulgado essa realidade, claro que nem tanto quanto deveriam, mas o problema é que a conscientização não acontece, nenhuma providência é tomada. Os políticos tentam tapar o sol com a peneira, como é o caso da última briga entre governadores do Rio e do Paraná, para saberem onde colocar os presos de “alta periculosidade”. Onde eles vão ficar não seria o caso, desde que eles fiquem longe de nós…desde que eles estejam impedidos de continuar praticando crimes e matando inocentes. Desde que eles deixem de ser uma ameaça para nossas vidas e de nossos amigos e familiares. Mas a realidade é que a politicagem já tomou uma proporção em que fica difícil qualquer argumentação. Eu, como jornalista e cidadã, me pergunto onde isso vai parar. Quantas pessoas inocentes ainda vão morrer vítimas de balas perdidas, de brigas entre gangues, e tudo o mais. Aquela velha frase continua: “Será que é preciso que um filho, irmão, ou um parente qualquer morra para que se tome uma atitude”? Acho que essa pergunta ainda está sem resposta. Mas nós, cidadãos, temos que continuar sim, nos revoltando e clamando por justiça, por dignidade, por condições de vida, por segurança, até que, quem sabe, a “fé” que você citou no seu texto, faça com que uma luz se acenda no final desse túnel sangrento.
Bem, penso que a situação chegou ao extremo sim, um extremo tal, que se tem medo de estar dentro de casa, que se tem medo de ajudar a quem precisa, que se tem medo da boa cachaça do fim de semana, que se tem medo não da vida, e sim das vidas ! O ser humano está vivendo como animais, comparação perfeita, pois disputam tudo e todos ao mesmo instante, ao mesmo tempo, e como disse o André, só muda de endereço, pois o que acontece na Vila João é o mesmo que acontece no senado, por isso, tantos escândalos.
” Como exigir dessas pessoas um voto consciente ?” Não exigir, pois aumentaria a dor, saber que colocaram conscientemente uma pessoa (como as que lá estão) no governo, feriria ainda mais o psicológico das pessoas.
Bem, para chegar aonde está, teve que começar um dia, e na minha vida só começará, se eu permitir, então deveríamos rever nossos valores, lembrar de nossos princípios e pôs-los em prática!
Devemos ajudar sim, colaborar sim, e achar em nossos filhos e em nosso espelho, força, para lutarmos e vivermos melhores a cada dia, pois ajudando a um, sei que estou ajudando o mundo !
” Quando isso tudo começou, quando isso tudo vai acabar… Será que a destruição total é a única solução ?”
( Bob Marley)
Muito bom texto! Inclusive postei lá no meu blog. Parabéns a Anf por estar encontrando um caminho e fazendo o que se propos, dar voz às favelas, mas nas palavras de seus moradores que vivem aquela realidade.
Agradeço o apoio e solidariedade de tod@s. Quando escrevi esse texto nao tinha a intenção de mobilizar tantas pessoas, nas verdade escrevia para meus pares, pessoas que como eu estao passando por problemas como esse. Mas o texto caiu na internet e tem chegado a várias pessoas e estou muito feliz por saber que aindas temos muitas pessoas preocupadas com o bem-estar das outras pessoas. Em nome da Maré quero agradecer de coração todo apoio que temos recebido e dizer que a luta é árdua mas a possibilidade de vitória eminente, acredito muito nisso. O Complexo de Favelas da Maré nem sempre foi assim e, por isso, acredito na volta da paz e com ela, a possibilidade para construirmos uma cidade una. Sempre que puder postarei aqui textos informando sobre nossa situação.
Abraço fraterno,
Francisco Marcelo
Olá querid@s!
Muito obrigado pelas mensagens de carinho e solidariedade postadas aqui ANF. É muito bom saber que podemos contar com pessoas de diferentes espaços e classes sociais na luta contra o descaso público em relação as populações marginalizadas de nossa cidade. “Não adianta ser milhões se formos um, ação coletiva objetivo comum” (Facção Central). Sempre que puder estarei postando nesse espaço mais informações sobre a situação na minha Comunidade.
Abraço fraterno a tod@s.
Francisco Marcelo
fRANCISCO
Estamos juntos sempre, no meio da madrugada, nas manhãs de sábado, indo comer baiã-de-dois. EStamos aí, com os seus.
e voc~e sabe disto
Francisco eu vivi está historia, fui morador do complexo durante toda minha infância e adolescência sem bem o que é isso, acompanho todos os acontecimentos, pois tenho muitos conhecidos e amigos no complexo.
Eu sei que o agravante desta situação são as pessoas (moradoras) de comunidades que vivem na ignorância, sem informação e sem conhecer a constituição de forma que não sabem o poder que possui, simplesmente por ser cidadão Brasileiro.
É para agravar está situação existem muitas pessoas que querem isso mesmo, que aceitam esta situação de forma que preferem tirar proveito disto, pois assim, se tem mão de obra barata e sem reivindicações de seus direitos.
Quero dizer que sou fielmente solidário a que todos possam ter direitos iguais, me considero exemplo vivo desta luta e creio que todos que moram e “são crias”, (como diz a gíria do local) e que são obrigados a conviver com esta situação já nasceram predestina a lutar por melhoria de todos e principalmente do local onde vivem.
Obs. Gostaria de poder publicar em meu blog o seu texto com sua permissão?
Mais uma vez ogrigado pela solidariedade. Luciane, estamos juntos sempre. José Ricardo, acho que a favela e as pessoas de lá são muito mais do que voce diz e é importante começarmos a valorizar o saber popular, nao é trivial, pouca coisa, nascer e crescer dentro de condições tao desfavoráveis. É preciso ser muito inteligente pra viver e crescer nas favelas. Pode publicar o texto sem problemas, ok?!
Grande abraço a tod@s.
Marcelo
Obrigado, por permitir a publicação.
Não quis generalizar, lógico que todos têm suas qualidades.
Eu sei o quanto e desafiador o dia a dia de quem não tem nada fácil por está em uma situação disfarçável.