Sabado, 11 de Fevereiro de 2012

A segurança das favelas e o pavor da classe média.

A foto é assustadora: sete rapazes musculosos e carecas em posição de combate, bermuda larga e chinelos, negros-escurecidos pela sombra da foto contra a luz que só revela os contornos, Pão de Açúcar ao fundo, e suas próprias sombras enormes, fantasmas refletidos no chão: “A segurança que vem da favela”, manchete da página, só pode ser uma ameaça.

Foi assim que O Globo, jornal de classe média para a classe média, noticiou, num domingo, 11 de março, a providência que a classe média estava tomando para se prevenir contra assaltos e outras surpresas, contratando a segurança de jovens das favelas próximas. Moradores de bairros nobres da zona sul da cidade recorrendo aos serviços irregulares de favelados. A antropóloga Alba Zaluar não deixa por menos: “com essa proposta de segurança, o tráfico garantiria os moradores do morro e do asfalto. A proposta é tomar o Estado dentro do próprio Estado. Eles são mais sutis que os mafiosos”.

A associação é imediata: morador do morro, portanto traficante. O jornal garante que todos os “seguranças” têm ficha limpa. Adianta pedir desculpas?

No dia seguinte, a repercussão: “Segurança sob investigação”. O coronel Lenine de Freitas, subsecretário operacional de Segurança Pública, está atento: vai abrir inquérito para investigar o serviço feito por moradores de favelas e, “assim que leu a reportagem”, ordenou maior patrulhamento nas áreas informadas – Copacabana, Gávea e Tijuca.

Mais um dia e o resultado na foto de capa: “O segurança Rogério Fidélis é preso: ele estava patrulhando ilegalmente uma rua a cerca de 200 metros do quartel do 23º BPM”. Dupla vitória: eliminação dos “favelados clandestinos”, acusação de incompetência da polícia.

Mas não é a incompetência da polícia que leva a recorrer aos “favelados clandestinos”?

Rogério Fidélis havia de conhecer garotos que circulavam pelas redondezas. Podia ser um “tio” a dissuadi-los de qualquer má intenção. Foi preso, como tantos outros naquele dia.
E a classe média continua apavorada.

Sylvia Moretzsohn Jornalista e Professora de jornalismo na UFF.

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