VIGÁRIO GERAL DEZ ANOS DEPOIS

21/10/2007

Foram necessárias 21 mortes de trabalhadores inocentes para que a comunidade de Vigário Geral ultrapassasse a linha do trem e se fizesse presente para a sociedade, o Estado e o mundo. Depois do dia 29 de agosto de 1993, a favela nunca mais seria a mesma tanto para os moradores quanto para a sociedade do asfalto. A crueldade das mortes marcaria para sempre aquele lugar, que mais parece um gueto cercado pela linha do trem e por Parada de Lucas.

A chacina está marcada principalmente na memória dos 13.000 habitantes que a presenciaram. Familiares, amigos e conhecidos das vítimas se recordam do acontecimento como se tivesse ocorrido há poucas semanas, mas poucos são os que ousam falar. O medo da repressão, a desconfiança do olhar e a distância para com o visitante são presenças constantes em Vigário Geral.

Valdir Baiense, morador há 33 anos da favela e um dos poucos que ainda falam do assunto, percebeu a entrada brusca dos policiais e permaneceu junto à família em casa. Só não sabia que seu filho Amarildo, de 31 anos, ainda estava a caminho de casa. “Estava na cozinha quando ouvi os passos pesados, característicos da PM. Avisei ao meu filho mais novo que não saísse de casa. Não esperava que o mais velho estivesse na rua, batendo de cara com os monstros”. Amarildo foi um dos últimos a serem mortos pelo grupo conhecido como Cavalos Corredores, formado no 9º Batalhão da Polícia Militar (Rocha Miranda), na época em que o coronel Emir Laranjeiras era o comandante responsável pela área.

No dia 30 de agosto de 1993, todo efetivo da Polícia Militar estava revoltado com a morte de quatro oficiais nas proximidades da favela de Vigário Geral. As mortes supostamente seriam resultado da ousadia dos traficantes, chefiados por Flávio Negão na época. Um grupo de cerca de 50 policiais resolveu então vingar as mortes dos colegas invadindo a comunidade e matando friamente 21 pessoas, das quais oito de uma mesma família de evangélicos. Destes, não havia nenhum envolvido com a bandidagem.

Na casa de nº 13 da rua Antônio Mendes, onde moravam os evangélicos, cujo único pecado do pai da família foi olhar na janela para ver o que estava acontecendo, tinham cinco crianças que conseguiram fugir para a casa da vizinha enquanto os criminosos decidiam os seus destinos. Morando em Bonsucesso, hoje a favela não traz nenhuma saudade e a chacina é assunto esquecido e proibido. Da casa a única coisa boa que ficou foi a transformação em um centro cultural que destinava-se a defender os direitos humanos dos moradores. E não existia nome melhor do que Casa da Paz.

Atualmente, a Casa é gerenciada pelo projeto Reciclagem e Cultura, da organização não governamental Onda Azul. Mas, vez em quando as atividades são interrompidas por falta de repasse de verbas dos patrocionadores. A instituição já ficou até dois anos fechada com a saída do Viva Rio e do seu idealizador Caio Ferraz, o sociólogo nascido e criado na comunidade.Caio Ferraz recusa-se a dar declarações sobre o assunto, mas segundo amigos ele teria deixado a comunidade após ameaças de morte feitas por pessoas envolvidas com a chacina e que estavam sendo incomodadas com as suas insistentes declarações. Com receio de uma repressão, Caio solicitou asilo político ao governo americano e lá se encontra até hoje com a sua família.

Além do projeto Reciclagem e Cultura, a comunidade de Vigário Geral conta hoje com o AfroReggae, o Mogec (Movimento Organizado de Gestão Comunitária) e a Associação de Moradores do Parque Proletário de Vigário Geral (como a favela é reconhecida em órgãos públicos). Todos estes movimentos junto à antiga administração da Casa da Paz foram fundamentais para o recuperação da comunidade por tentar mostrar aos moradores que eles tinham direitos e que estes deveriam ser respeitados.

Mas nada foi capaz de mudar a relação da comunidade com a polícia. Esta relação possui a marca expressiva do medo. A incerteza quanto ao que vai acontecer quando esta entidade governamental entra na favela é visível no olhar das pessoas. Segundo moradores, não há respeito dos policiais com a população. “Eles acham que todo mundo é bandido e acabou”, conta uma jovem que já acordou com policiais fardados dentro de sua casa sem nenhum mandato que permitisse este tipo de ação.

Com atitudes arbitrárias, a Polícia Militar do Rio de Janeiro acumula ódio das pessoas que poderiam apoiá-los caso houvesse outro tipo de tratamento. Não é a toa que bandidos como Flávio Negão são adorados e lembrados com saudosismo por moradores revoltados com a atual situação. “Ele era uma pessoa muito boa para a gente. Pena ter morrido tão cedo”, diz a mesma jovem citada acima que preferiu não se identificar.

A relação com a favela Parada de Lucas, que mais parece uma continuação de Vigário Geral, também nunca foi fácil. De facções diferentes, a primeira pertence ao Terceiro Comando e a segunda ao Comando Vermelho, as duas estão sempre travando batalhas pelo domínio da venda de drogas na região. Na época da chacina, os traficantes de Parada de Lucas chegaram a ser acusados de serem autores da chacina, mas a hipótese logo foi descartada. Além disso os dois grupos selaram uma acordo de paz e houve uma período de trégua, chegando a ser realizado um baile funk que reuniu as duas comunidades pela primeira vez. Hoje, embora as duas associações de moradores tenham relações cordiais, as duas comunidades continuam vítimas de uma guerra que parece não ter fim.

Vigário Geral também teve mudanças em sua estrutura e no espaço físico. Os 200 mil metros quadrados da época da chacina aumentaram com a chegada de novas pessoas que aproveitaram a desvalorização imobiliária com a saída de moradores temerosos de novos massacres. Algumas ruas de terra batida que fervilhavam de calor foram substituídas pelo asfalto que chegou junto com o Favela Bairro, programa (ainda inacabado) da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. O saneamento básico e o serviço de iluminação pública, precários há 10 anos, foram melhorados e a população já conta com canalização ampliada e iluminação digna. A creche Coração de Gênesi, fechada até 1993, foi reaberta e já existe outra construída, pronta para ser inaugurada.

Em contrapartida, o atraso encontrado em todas as comunidades carentes do Rio de Janeiro também está presente em Vigário Geral. Sendo uma das mais pobres favelas da cidade, a comunidade só pode contar com o Ciep Mestre Cartola, que divide com Parada de Lucas, para a educação. Embora a maioria das casas seje de alvenaria, ainda existem barracos de madeira que com uma chuva mais forte podem desmoronar. Sem falar no alto nível de violência que os moradores são obrigados a conviver.

Contudo, os moradores tem um enorme carinho pela favela. Defendem pessoas que estão sempre ajudando a comunidade, sejam autoridades políticas ou pessoas ligadas ao crime organizado, e reconhecem o progresso ocorrido após a chacina. “Mesmo com todos os problemas eu quero morar aqui até morrer. Se eu sair daqui perco a minha identidade. Quem eu serei lá fora?”, disse Luzineide, tesoureira da associação de moradores.

No próximo dia 29 de agosto será comemorado o Dia de Luta contra a Violência, projeto aprovado pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Neste dia deve ser lembrado que existem acusados que não foram julgados, acusados absolvidos e acusados que fugiram da cadeia. Deve ser lembrado ainda que os familiares das vítimas não receberam a indenização que lhes é de direito e que nada mudou em relação ao caos causado pela violência na cidade do Rio. Que este dia torne-se uma marco, assim como a chacina de Vigário Geral ocorrida há dez anos atrás se tornou.

Camilla Antunes de Souza

6 comentários em “VIGÁRIO GERAL DEZ ANOS DEPOIS”

  1. Márcia:

    Muito bom o artigo.
    Li o livro “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura (Cia das Letras), e este artigo caiu como uma espécie de prólogo atual sobre a situação da Comunidade de Vigário Geral e da Casa da Paz.

  2. Gabriella:

    Estou lendo exatamente esse livro citado no outro comentario e parei para pesquisar coisas sobre vigario geral. Realmente interresante o artigo pois nos mostra um pouco como esta a situacao atual.

  3. douglas:

    bem q poderia ter cido melhor e com + tempo de duração
    + devido as cicunstâcia do evento o tempo foi curto,
    mais deu pra aproveita!!

  4. chinaider:

    Li completamente o texto escrito, fiquei triste por minha comunidade ser conhecida pela violencia existente, até que tem mudado um pouco com a insistencia duradoura do grupo cultural afroreggae na comunidade, não digo isto por hoje eu ser um funcionário do afroreggae, pois é visivel que projetos de acões culturais e educacional é a melhor saida para que pessoas que vivem em situações financeiras diferenciadas trilhem o caminho do bem,pena a parte responsavel por isso conhecer o problema e não fazer nada. Eu conheço os dois lados e se hoje estou ressocializado, trabalhando e estudando, devo isso a esta ONG que ja conquistou seu espaço respeitavel na sociedade e tem ajudado muito os moradores sofridos daquela comunidade chamada Vigário Geral, Parabens Afroreggae! 15 anos em ação. Eu me orgulho de fazer parte desta familia.

  5. Viviane:

    Sábado, 16 de Maio de 2009
    VOCÊ CONHECE A HISTÓRIA DE VIGÁRIO GERAL E JARDIM AMÉRICA?

    “Em 1966 o Conjunto Habitacional Padre José de Anchieta financiado pelo extinto BNH, foi inaugurado com a presença do então Presidente da República Gen. Castelo Branco. Posteriormente já na década de 70 foi inaugurado o Conjunto Habitacional Vigário Geral. Por essa época, o bairro eminentemente residencial teve várias industrias instaladas, tais como a Paskin Cia LTDA e Freitas Leitão Ind e Com. as quais por iniciativa de suas associações de moradores foram por fim fechadas devido a poluição que causavam.”

    OBS: Primeiro conjunto habitacional do Brasil,
    Deveria ser tombado pelo patrimônio público.

    Curiosidade: “O primeiro loteamento ocorreu no final da década de 30 através da Companhia Territorial do Rio de Janeiro. Em 1950 uma parte da antiga Fazenda Botafogo adjacente ao bairro foi loteada criando um “sub-bairro” dentro de Vigário Geral chamado Jardim América.”

    HISTÓRIA

    VOCÊ CONHECE VIGÁRIO GERAL ?

    No período da colonização do Brasil, quando o Rio de Janeiro, era um grande celeiro econômico, devido a produção agrícola e pecuária, em suas diversas regiões. As terras estavam divididas em distritos, denominados Freguesias, sendo três destas Freguesias, de propriedade da Igreja Católica e duas de leigos (propriedade privada) onde existiam diversas fazendas e engenhos. As três freguesias Católicas eram: a primeira, a de São Sebastião, do Rio de Janeiro; a segunda, da Candelária e a terceira, a do Irajá. A Freguesia do Irajá mantinha a administração religiosa em toda a região de seu domínio, que além das áreas locais, próximas à Igreja da Nossa Senhora da Apresentação, originada com o Padre Antônio Martins Loureiro em 1644 (sede da Freguesia, onde se encontrava o vigário geral, categoria do clero, desta Freguesia) que se estendia até a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em 1866, a rede ferroviária inaugurou o fluxo de trem, para servir a Família Imperial no eixo Rio-Petrópolis, passando por diversas fazendas da regiões. Nas terras consideradas relengas, pantanosas, existia uma grande fazenda, a Nossa Senhora das Graças, onde havia o Engenho do Vigário Geral, também conhecido por “Engenho Velho”, próximo ao Rio Meriti. Com a extinção do engenho, a fazenda passou a ser propriedade de deputado e médico Dr. Bulhões Marcial. Em 1910, o Dr. Bulhões Marcial, decidiu lotear suas terras, com interesse de aumentar a população na região. Nesse mesmo momento, dia 05 de outubro de 1910, a rede ferroviária montou um barracão como parada do trem, para atender a nova população inaugurando assim a estação, que recebeu o nome do Velho Engenho, ali extinto, mas que deveria ficar na memória, perpetuando o seu nome “Vigário Geral”.

    Esse bairro, ocupa uma grande extensão geográfica, desde a Rua Bulhões Marcial (antiga Rio-Petrópolis) paralela à rede ferroviária, até a Rodovia Presidente Dutra, onde situa um sub-bairro, que fora denominado Jardim América, loteado em 1956. Muitos moradores da região, ignoram o antigo bairro, dizendo morar no Jardim América, só esquecendo que as ruas onde eles residem são mais antigas que o Jardim América.

    Vigário Geral fez parte da capital do Brasil, quando aqui era Distrito Federal; foi o primeiro limite do Estado da Guanabara com o antigo Estado do Rio de Janeiro. É um bairro que sempre sofreu o problema da discriminação. Por quem não conhece, na década de cinqüenta, com a influência do deputado Tenório Cavalcante, que era o homem forte de Duque de Caxias, onde os grandes conflitos políticos traziam para aquela cidade um clima de temor, tornando-a o símbolo da violência. E por sermos vizinhos, muita gente imaginava que Vigário Geral pertencia a Baixada Fluminense, sendo que até hoje, ainda tem quem pense assim.

    Em 1993, Vigário Geral, passou por uma grande tragédia que abalou o mundo inteiro, quando ocorreu a grande chacina, onde inocentes perderam suas vidas. Esse foi um marco muito forte para a nossa comunidade. Tanto para a população do Parque Proletário de Vigário Geral como para o Bairro Vigário Geral, há quem pensem que Vigário Geral é um local de alta periculosidade e de alto índice de violência. Mas quem conhece sabe que não é nada disso, pois existem lugares mais sofisticados e que são piores que Vigário Geral. Muitas empresas de certo porte; onde as pessoas não conhecem o bairro e não aceitam trabalhadores de Vigário Geral, pois fazem preconceito e discriminação.

    O bairro Vigário Geral contém cinco escolas de ensino Fundamental: a Escola Municipal República do Líbano, a Escola Municipal Jorge Gouveia, a Escola Municipal Eneida, a Escola Municipal Heitor Beltrão e a Escola Municipal Alfredo Valadão; um pequeno comércio, três clubes sociais: o União Cívica e Progresso de Vigário Geral, o Vila Nova Esporte Club e o Club Alto dos Motas; cinco praças: a Praça Catolé do Rocha (Nesta praça os 4 PM’s foram assassinados pelo traficante Flavio Negão, um dia antes da Chacina), que mantém um dos poucos coretos tombados pelo Patrimônio Histórico, a Praça Irineu Machado, a Praça Elba, Praça Córsega (Praça 2, “HOJE UM GRANDE PÓLO COMERCIAL”), e a Praça Rodrigues Alves, onde está localizada a Escola Eneida na Rua Furquim Mendes; três Associações de moradores: a Associação de Moradores e Amigos de Vigário Geral, a Associação de Moradores da Rua Furquim Mendes e a Associação de Moradores da Vila esperança; uma associação beneficente: a Sociedade Beneficente e Recreativa Floriano Peixoto; e a Região Administrativa, cuja abrangência é desconhecida pela comunidade e temos também uma grande usina de tratamento sanitário “Usina de Tratamento da Bacia do Rio Pavuna” que faz parte do projeto de despoluição da Baía da Guanabara.

    O Parque proletário de Vigário Geral, está localizado no lado direito da rede ferroviária no sentido de Duque de Caxias e tem ligação com áreas de Marinha, pois, lá existem vários projetos sociais voltados para o desenvolvimento cultural. (”FAVELA” DE VIGÁRIO GERAL).

    Atualmente, o bairro Vigário Geral contém, aproximadamente, 35.000 habitantes, centenas de empresas e é considerado o segundo pólo industrial e de serviços do município do Rio de Janeiro, podemos até citar algumas das empresas instaladas em Vigário Geral como: a DuLoren Internacional, a Metalúrgica Moldenox, a “Silimed”- a maior empresa produtora de silicone no Brasil, a Indústria de Cosméticos Never e a tradicional Tintura Márcia, a Marcial Incêndio, algumas empresas transportadoras e de ônibus como: a Breda Turismo, a Autodiesel e outras. Essas empresas empregam milhares de trabalhadores, do Rio e Grande Rio. Através dessa matéria, pode-se perceber que Vigário Geral, não é uma grande favela como as pessoas imaginam. Pois, é composto de um grande bairro residencial e industrial, do Parque Proletário que está no projeto Favela/Bairro da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, e também do Jardim América.

    CIDADANIA

    PROJETO DE LEI Nº1270/2007

    INSTITUI A SEMANA DO BAIRRO DE VIGÁRIO
    GERAL NA FORMA QUE MENCIONA.

    Autora: Vereadora Pastora Márcia Teixeira

    A CÂMARA MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

    DECRETA:

    Art. 1º Fica instituída na forma desta Lei a “Semana do Bairro de Vigário Geral”.

    Art. 2º A “Semana do Bairro de Vigário Geral”. integrará o Calendário Oficial de eventos de interesse histórico e turístico da Cidade, devendo ser comemorada anualmente no período compreendido entre os dias 04 e 12 de outubro, data dedicada aos festejos alusivos ao aniversário do Bairro de Vigário Geral.

    Art. 3° Dentre outras atividades a “Semana do Bairro de Vigário Geral” constará de programas de valorização do bairro, eventos culturais e artísticos, bem como atividades dedicadas ao resgate de sua história, garantida a participação da população local.

    Art. 4º A Prefeitura promoverá a preservação da memória histórica e cultural do bairro de Vigário Geral, implementando:

    I – inventários;

    II – tombamentos;

    III – divulgação de eventos;

    IV – projetos de preservação do ambiente histórico e cultural; e

    V – recuperação, melhoria e preservação de logradouros e edificações que façam parte da história do bairro.

    Art. 5º As despesas decorrentes do disposto nesta Lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias do Município, conforme devida previsão na Lei Orçamentária Anual.

    Art. 6º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

    Plenário Teotônio Villela, 06 de agosto de 2007

    PASTORA MÁRCIA TEIXEIRA
    VEREADORA

    OFERTADO AO BLOG POR SÉRGIO CERQUEIRA BORGES.

    Postado por VIVIANE BORGES PRODUÇÕES DE VÍDEOS. às 17:51 2 comentários Links para esta postagem

  6. Daniel Feldman Israel:

    Poxa, o artigo foi escrito pela “primeira agência de notícias de favelas do mundo!” e cometeu um erro grosseiro: lembrar da chacina de Vigário Geral em 2007, afirmando que ocorrera dez anos antes, ou mostra que o autor do texto não sabe subtrair, ou o problema está em mim, que estou lendo 2007 mas meus olhos não me deixariam perceber que está escrito 2003. Afinal, os 21 assassinados aconteceram numa única madrugada de 1993, que ao longo do texto chega a ser citado como o ano em que ocorreu este evento atroz, mas, tendo o artigo sido postado em 21 de Outubro de 2007, estou certo de que a solução não está no fato de eu arregalar mais uma vez os olhos, às três da manhã.

    Sobre o “Cidade Partida”, é por causa dele que estou aqui. Acabei de ler há poucos minutos, e a sua leitura significou para mim nada menos que um convite a interagir de vez e de forma efetiva com as transformações da cidade, dadas as consequências geradas no seio da sua sociedade. Um livro que é fundamental pela natureza do tema que é tratado, um livro que é indispensável para cada um entender que a cidade está aí para ser vivida por todos. Não sei se já foi lançado outro livro mais atual e definitivo sobre o Rio de Janeiro e suas peculiaridades, mas penso que, depois dos dez meses frequentando a favela, o Zuenir Ventura passou por alguma espécie de reformulação em sua identidade como carioca.

    Viva a Zuenir Ventura, que descortina o abismo social deste Rio de Janeiro que continua uma cidade maravilhosa, onde, no entanto, favelas e arranha-céus podem finalmente tentar se agrupar dentro do binômio que mescla diálogo e convivência. Pena que já se passaram quinze anos e o cenário é quase nada animador. Ainda assim, sigamos com “Cidade Partida” “no corpo, na alma e no coração”.

    Igualmente, vida longa à Agência de Notícias das Favelas!

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