20 de novembro: um dia de orgulho e dor na capital mais negra do Brasil

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No Dia da Consciência Negra, várias fitas me vêm à cabeça: acordei, tomei banho, ajoelhei, acendi uma vela e pedi humildemente aos orixás – dessa vez não por mim e somente pelos que amo, mas por todo o meu povo. Percebi a importância de cobrar do poder público os nossos direitos, mas também, pensando de maneira mais emotiva, que precisamos começar por nós mesmos. Roguei a Olorum, implorando que as organizações étnicas pensem um pouco mais, de fato, no povo negro e amenizem vaidades, pretensões de poder e egos inflados. O povo negro está morrendo nas mãos da polícia, quando não por autofagia.

Há pouco, rolou nas redes sociais uma campanha para que se trocasse a foto de perfil por retratos de líderes negros. Tenho ciência do quanto devemos a ícones como Nelson Mandela, Martin Luther King e Malcom X. Mas optei por colocar a foto de meu pai, o ex-entregador de jornal, ex-limpador de privada e ex-balconista de padaria que é hoje advogado e empresário, o vencedor de adversidades na nossa desordem chamada Brasil. Se essa nação fosse séria e existisse de fato democracia racial, nós não seriamos 83,6% de uma população que não se vê representada na Câmara e que nem sequer consegue eleger um prefeito que tenha, na presença da melanina, a sensibilidade de tudo aquilo que nos martiriza.

Reflexões? Várias. Até quando veremos universidades públicas para filhinhos de papai, e nós, negros, sendo discriminados até pela forma de inserção via cotas? Afinal de contas, nós não pedimos para nascer em meio aos delinquentes, os incapazes de êxito comercial, os infratores de normas europeias que aqui desembarcaram e começaram toda essa grande sacanagem.

Hoje, vejo amigos dizendo que tudo isso é bobagem, que sou noiado demais com questões raciais. A melhor resposta é o meu silêncio e a abdicação de determinados laços, porque aquele que a mim não compreende e respeita não é digno de fazer parte da minha jornada. Vejo todos os dias alguma atitude racista, mas hoje parei para pensar e foi difícil não sentir o peso das reflexivas linhas de raciocínio. Avanços, retrocessos ou estagnação racial no Brasil? Até quando vamos comemorar atrás dos trios elétricos a consciência negra e, ao término da festa, regressar para palafitas e ver nossos filhos privados de suas garantias fundamentais? Até quando estaremos dançando ao som dos tambores, que legitimamente são feitos por nós, e, no final, seremos tratados como gado pela Polícia Militar?

Fala-se de consciência. Então, que comecemos a exercê-la de verdade, tornando-nos agentes multiplicadores, fomentadores de horizontes aos nossos jovens, em vez de nos digladiar e alimentar nossos egos quanto a quem tem melhor trajetória política, quem escreve mais ou menos, quem luta mais ou menos… Lutemos juntos! Busquemos a unicidade da raça, pois como já dizia o nosso velho Ilê, na inesquecível voz do meu ídolo Guiguiu: “A evolução da raça pode abalar o mundo; população magoada, a nossa honra tem que ser lavada”.

Ao término da minha prece, desejo de joelhos, diante da imagem de meu pai Xangô, que sejamos soldados de um exército que precisa ter consciência do próprio potencial, que nosso general apareça e que a revolução venha pelos meios necessários, mas que as mudanças sejam latentes. Para isso, o primeiro passo é deixarmos de ser algozes de nós mesmos. É preciso quebrar os grilhões, romper os bloqueios da baixa autoestima que impetraram desde sempre nossas almas, e seguirmos rumo a um horizonte negro, onde ocupemos todas as esferas de poder.

Se os governantes não melhorarem a educação pública, que nós tenhamos a condição de ocupar as cadeiras do ensino privado. Se os políticos não tornarem digno o atendimento do SUS, que cada pai de família negro possa ter entre seus pertences uma carteira de plano de saúde e sua família possa ter a dignidade exigida por princípios constitucionais. Que o direito de ir e vir deixe de ser cerceado pelo chamado perfil suspeito, estereotipado por aqueles que estão do outro lado. Que essa mídia robótica pare de colocar sobre os ombros de nossos jovens os desejos de consumo que os levam a caminhos adversos e nem sempre corretos. Que eles tenham, sim, programas eficazes na capacitação e portas abertas para o ingresso nas universidades com dignidade e equiparação.

Enfim, este é só um desabafo, porque, como muito negrões e negronas de guerra, eu também vou estar na rua, entre uma latinha e outra, celebrando com os meus, este dia tão importante para todos nós. Axé, meu povo, e reflexões sempre!

20nov